Buscar: Newsletter:

Comunicação

Tijolaço (sobre a Folha): Não, não foi erro, foi fraude mesmo

DO BAHIA TODO DIA 24/07/2016 | 22h00

* Por Fernando Brito (em o Tijolaço)

A ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, relata, na sua coluna de hoje, a história do “desaparecimento” da pergunta da pesquisa Datafolha sobre o desejo de 62% dos brasileiros de que se convoquem novas eleições, extirpada na divulgação feita pela Folha, para dizer que “50%dos entrevistados” queriam a continuidade de Michel Temer.

A questão, como se sabe, foi levantada por Glenn Grenwald e Erick Dau, no Intercept. Com o trabalho deles, este Tijolaço pôde colaborar, descobrindo o relatório original (ou quase) da pesquisa onde consta a pergunta e a tabulação das respostas que revelam a “abdução” de resultado que contradizia as conclusões que o jornal apresentava para a pesquisa.

O relato é quase correto, como você verá no texto, que reproduzo ao final.

No entanto, a análise, de novo, é omissa: o erro, como vai se mostrar adiante, pontualmente, na narração da ombudsman, mostra que é inveraz a alegação, já por si insustentável, de que o jornal resolveu “desconsiderar” a pergunta.

Não é o certo: ele a eliminou deliberadamente, para sustentar a versão que apresentou aos leitores. Não é, pois, questão de erro ou incompetência, mas de imposição da versão conveniente para o jornal em prejuízo da verdade dos fatos.

Paula diz, com grifos meus:

Para alimentar teorias conspiratórias, revelou-se que o Datafolha colocou em seu site mais de uma versão do relatório da pesquisa polêmica, sendo que em só uma delas constavam as duas perguntas. O instituto explica que faz um relatório completo para a Redação, mas divulga no site apenas o que saiu no jornal. No caso, o primeiro documento continha, por falha, título sobre a pergunta 14, ausente do relatório por não ter sido usada.

Não, Paula.

O documento que continha “por falha” o título (na verdade, subtítulo) sobre 60% desejarem nova eleição não é o primeiro.

Tanto que o arquivo que o contém, como cansei de destacar aqui, desde o primeiro post, terminava com um “v2”, o que indica, óbvio, que era a segunda versão. Difere do primeiro documento, – aquele que contém a pergunta, de número 14 e aos seus resultados, bem como a de número 11, que indaga sobre a legalidade ou ilegalidade da condução do processo de impeachment.

Mesmo este documento – a versão 2, que recuperamos, a mais completa –, já tem um “descarte” de perguntas – cujo conteúdo, agora, passou a ser indispensável revelar. Faltam vir à tona oito perguntas: 4, 5, 15, 16, 17, 20, 29 e 34, como registrou a jornalista Leticia Sallorenzo que, neste blog, antes da descoberta, sistematizou e questionou o sumiço de perguntas.

Ou seja: na melhor das hipóteses, teríamos eu admitir que as perguntas eliminadas neles não tivessem “interesse jornalístico”. Mas a própria ombudsman registra ( o grifo, outra vez, é meu) que participou da elaboração de questionários e que neles não entram perguntas ociosas:

Quando secretária de Redação e editora de Política, participei da elaboração de incontáveis questionários de pesquisas Datafolha. Com a limitação técnica de quantidade de perguntas, cada uma precisa ser muito bem pensada e escolhida. Não há justificativa para colocar uma pergunta e depois ignorá-la.

As oito perguntas ainda “sumidas” (Paula fala de uma; os fatos mostram que são oito, ainda) representam um quinto das perguntas formuladas!

Os fatos estão documentalmente estabelecidos.Revelá-los foi jornalismo, não algo “para alimentar teorias conspiratórias”, como ela escreve.

Paula diz que “a questão central está na acusação de o jornal ter omitido, deliberadamente, que a maioria dos entrevistados (62%) pelo Datafolha se disseram favoráveis a novas eleições presidenciais, em cenário provocado pela renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer.”

Pois a questão central, permito-me dizer, não é mais “se”, mas “por que” se fez a extirpação das perguntas e das repostas e colocou-se apenas aquelas que pareciam indicar o sentido oposto.

E esta questão está para ser respondida por quem faz a crítica do episódio.

A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter postura jornalística equidistante das paixões políticas. Tendo a chance de reparar o erro, encastelou-se na lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso.

Não foi o caso de não se preocupar em “explorar os diversos pontos de vista que o material permitia”, mas o de deliberadamente omitir do conhecimento público. E o deliberado também se prova, quando está claramente estabelecido que se fez uma segunda versão do relatório para eliminar as perguntas e os resultados das respostas.

Não foi a “lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso”, tanto que a equipe do Datafolha que elaborou o resumo descritivo colocou em dois parágrafos, logo a seguir à abertura da análise, o que as perguntas “abduzidas” revelavam da opinião dos entrevistados. E não as considerou “irrelevantes”, tanto que mencionou seu resultado no subtítulo que, esquecidos de mudar na versão “ajustada”, deu a pista para a revelação de sua existência.

Não houve um simples erro, casual e desatento. Houve uma ação para eliminar informação que o próprio Datafolha considerou relevante, ao ponto da analisa-la e levá-la ao subtítulo de seu relatório.

E o nome disso é fraude, em bom português.

Fraudou, foi apanhada e, em lugar de assumir que alguém agiu errado e corrigir-se, saiu-se com explicações também fraudulentas.



Bahiatododia - o site da notícia - © Copyright 2011 a 2016 | Todos os direitos reservados.