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Entrevistas

O ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda, Ciro Gomes, falou com o BTD sobre economia e política. Ele criticou a condução da economia e disse que está disponível para 2018.

BTD - Como o senhor avalia o atual momento de crise política e econômica no Brasil?

Ciro - Com preocupação porque estamos vendo escorrer pela crise conquistas históricas dos trabalhadores brasileiros e não podemos permitir que isso aconteça porque sempre quem perde é o povo mais pobre, mais sofrido do país. 

BTD - E como o senhor vê a situação do governo, que perde base social com a dureza do ajuste fiscal e as denúncias de corrupção, e perde base no Congresso?

Ciro - A corrupção choca o povo. Porém, sempre digo, que precisamos ter cuidado para não sermos manipulados, aderindo a um mobilismo que serve, principalmente, aos interesses de setores atrasados e imorais da política brasileira. Crises são normais do regime presidencialista, mas não podemos confundir isso com pressões e chantagens de setores que sempre estiveram envolvidas com a imoralidade e com os interesses do capital internacional. 

BTD - Mas a economia vai mal e isso enfraquece a Presidência...

Ciro - Nós estamos vivendo um momento difícil, de crescimento do déficit em transações correntes, de avanço inflacionário e de perda de competitividade da economia. Mas o governo precisa rever certos fundamentos de sua política econômica, que em minha avaliação estão errados. Por exemplo, os juros. Grande parte de nossa inflação vem de preços administrados, como a energia, cuja alta passou de 50%. A selic não tem impacto sobre estes reajustes. Ou seja, é uma medida que não resolve o problema, mas cria outros, porque amordaça o setor produtivo e traz, como consequência, a recessão e o desemprego. Apenas o segmento rentista, de onde vem o ministro da Fazenda, fica feliz com esta política.  

BTD - O que o senhor acha da proposta de impeachment? 

Ciro - Está em jogo no Brasil um golpe contra a presidente Dilma, articulado pelos mesmos segmentos que sempre se beneficiaram da pobreza e da miséria do povo. Precisamos defender o governo porque impeachment não é remédio para governo ruim. Para mudar governo que não atende nossas expectativas é que existem eleições de quatro em quatro anos. A atual Presidência foi eleita há menos de um ano e, a menos que apareçam fatos novos, os que estão aí colocados não sustentam um processo de impeachment. Aliás, isso não faz parte de nossa história republicada, exceto no caso do presidente Collor, que só foi derrubado porque conseguiu a proeza de provocar uma aliança entre o povo e os banqueiros, quando sequestrou a poupança. Por traz dessa proposta que surge por aí está a intenção de chantagear a presidenta e colocar o governo permanentemente na defensiva.

BTD - Na sua opinião, qual o principal erro cometido pelo governo?

Ciro - O principal foi se eleger com o voto dos trabalhadores e se distanciar de sua base, entregando o controle da economia ao setor financeiro e a articulação política à gatunagem. Errou também ao permitir, dentro da própria base, o fortalecimento de setores atrasados e corruptos, como é o caso do senhor Eduardo Cunha, um bandido, pilantra, gangster que envergonha o parlamento e é uma lástima para o legislativo. 

BTD - Ultimamente o senhor não tem tido uma presença incisiva no debate político, como é do seu feitio. Como poderia ajudar neste momento?

Ciro - Tenho ficado calado. Sempre me chamam de polêmico porque esculhambo meus adversários. Agora estou calado para não xingar meus amigos (risos). Mas estou 100% disponível para ser o velho militante e liderar democraticamente a defesa do governo da presidenta Dilma. É preciso mobilizar a base social que sempre sustentou o setor que está no governo para defendê-lo do golpe que está em curso. 

BTD - É verdade que o senhor está indo para o PDT?   

Ciro - A possibilidade de ir para o PDT é real, mas ainda não é concreta, pois somos um conjunto de pessoas, mais de 80 prefeitos, enfim, quase uma dezena de deputados federais, e tomaremos esta decisão amadurecida em conjunto. Hoje, a única razão que há para apressar esta decisão é o calendário eleitoral das eleições municipais. Dado que não sou candidato em nenhuma circunstância nessas eleições,  eu não preciso tomar esta decisão agora.   

BTD - O senhor em liderar um movimento democrático da base social do governo para defendê-lo. Como isso pode se dá?  

Ciro - São questões difíceis. Acho que o Brasil tem muitos problemas: saúde, segurança etc. Mas as soluções para o problema brasileiro passam por uma premissa: o empoderamento da sociedade civil brasileira. E uma das formas mais avançadas e modernas ainda hoje,  apesar de uma propaganda neoliberal tentando desmoralizar isso, é a organização dos trabalhadores ao redor de suas corporações. Desde que eles tenham clareza de que sua agenda é dupla. Há uma agenda natural, legítima,  da postulação de seus direitos, das condições para o seu trabalho, do bom desenvolvimento. Mas a boa organização sindical não esquece jamais que é uma expressão avançada da sociedade civil organizada e está ligada na grande agenda do país. E, neste instante, tudo está por ser decidido. Já temos conquistas democráticas que estão sob ameaça, como o peso dos salários em relação à renda nacional. Todos os avanços sociais dos últimos anos estão sob grave ameaça. Portanto, se alguma vez o Brasil precisou de seus trabalhadores organizados na luta, essa é a vez.  

BTD - O senhor disse que não se colocará na disputa de 2016. Mas para 2018, quais os seus planos?

Ciro - Em 2016 eu irei ajudar os companheiros. Para 2018, estarei disponível para defender os interesses do povo brasileiro. 



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