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Entrevistas

Entrevista com Marcos Mendes (PSOL)

Marcos Mendes, candidato a governador da Bahia pelo Psol, fala ao BTD sobre projetos da legenda para o estado e como pretende conduzir a relação política entre partidos na Assembleia Legislativa.

Militante dos movimentos estudantil e social, ativista ambiental e uma das lideranças mais destacadas no Partido Socialismo e Liberdade (Psol), Marcos Mendes, de 49 anos, se coloca como uma nova via de discussão sobre as grandes questões do Estado da Bahia e pretende mudar a relação política entre o governo e o parlamento baiano. 

 

Como você começou a se envolver com a política?

Tenho 49 anos. Nasci na Liberdade, bairro pobre e popular. Minha mãe foi para o Rio de Janeiro. Morei um tempo com minha avó, em Castelo Branco. Estudei na Escola Professor Raimundo Gouveia. Depois fui transferido para o ICEIA, na 5ª série. Nessa época, não tinha movimentação política que encantasse. Quando entrei na Escola Técnica Federal vi um outro universo e comecei a entender o contexto político. Os alunos se reuniam para discutir política. Sempre tive um viés de esquerda, era muito questionador. Comecei a conhecer as ideias de Karl Marx e a me envolver com o movimento estudantil, sendo presidente do DA (Diretório Acadêmico), e, assim, iniciei minha trajetória política militando no Partido dos Trabalhadores (PT). Não tinha a intenção de ser candidato a nada, nem ser da direção do partido, porque se tinha uma linha programática que eu acredito, quem tiver lá encaminhará o que todos defendem. Eu gostava muito de ficar no trabalho de base, junto com os estudantes e, depois, com os trabalhadores. Para se ter uma ideia, fiquei 20 anos no PT, mas apenas 10 como filiado, porque o partido era tão rígido àquela época, para filiar que eu desisti. Para mim, o mais importante era militar e fazer o trabalho. Participei da primeira eleição de Lula (em 1989) e de todas as outras. Na primeira, quase fui preso em Salinas das Margaridas. A prefeita disse que ia me prender porque estava fazendo boca de urna para Lula. Meu pai disse a ela: “Eu não vou mudar a cabeça dele. Você vai prender ele e a única coisa que vou fazer como pai é tomar providências para soltá-lo”. Ela desistiu da prisão.

Você participou do movimento estudantil?

Além da Escola Técnica, naUFBA, participei do DA de Geociências, fiz pós-graduação em Gestão Pública Municipal Governamental. Depois fiz Mestrado em Geologia Ambiental, na região do semiárido. Minha ligação com a universidade continuou pois fiz um concurso para professor substituto e ensinei por dois anos na Escola de Geologia. Hoje sou coordenador do Instituto Búzios, que trabalha as questões ambiental, racial e ligadas às mulheres e também ingressei na Caixa Econômica, onde trabalho hoje.

E a vida familiar?

Fui criado praticamente por uma mãe solteira. Meu pai não conviveu com a gente. Minha mãe é uma guerreira e pai, defendia a gente com unhas e dentes. Eu e meus dois irmãos temos uma relação boa com ela, que nos ensinou uma coisa essencial: a ética. Ela lavava roupa e vendia lelê para ter renda. Sempre que a gente chegava em casa com uma coisa diferente ela perguntava quem deu e fazia questão de ir saber da pessoa se foi isso mesmo. Diferente das crianças de hoje, que andam mais no computador e no celular, na Liberdade, vivenciamos a cultura da rua, brincando de bicicleta, de bola. Temos uma relação familiar forte. A gente sempre se reúne, um ajuda o outro. Na Caixa, conheci minha esposa Marcele, durante o trabalho extra no setor de compensação. Namoramos, casamos e tivemos um filho que hoje está com 20 anos. Ele faz Direito na UFBA e é politizado. Participou das manifestações do Movimento Passe Livre, em junho do ano passado. Eu sempre o apoiei e só o orientava a ter cuidado. Quando completou 16 anos, pediu para se filiar ao PSOL.

Porque você saiu do PT e foi para o PSOL?

Quando Lula ganhou em 2002, assumiu o governo com uma linha diferente do que sempre defendemos. Tomei um susto quando colocou Henrique Meireles no Banco Central. Depois, defendeu José Sarney e, em seguida, Renan Calheiros. Passei a não acreditar mais no PT e decidi sair do partido em 2004, por não ter mais paixão nem confiança política. Assim, continuei a luta na UFBA. Com a reforma da Previdência, a então deputada federal Eloisa Helena (que era do PT) votou contra e foi expulsa do partido, juntamente com outros parlamentares. Com Luciana Genro e Babá (também deputados federais do PT), resolveu fundar o PSOL e me convidaram para entrar no partido, numa época em que fazia o mestrado na UFBA. Fui um dos principais organizadores do PSOL na Bahia e primeiro presidente estadual do partido.


"Quando Lula assumiu, veio a primeira porrada com a colocação de (Henrique) Meireles no Banco Central, tendo o país economistas marxistas e mais progressistas, enquanto o PT indica um dos maiores representantes dos banqueiros internacionais, inclusive ligado ao PSDB"


Como o PSOL e você, que é o pré-candidato do partido ao governo da Bahia, veem o Brasil na atualidade?

Existiu uma onda de esperança muito grande com o PT e eu navegava nela com muito entusiasmo. Para vocês terem ideia, quando Lula venceu em 2002, a gente foi andando até a Barra para comemorar, achando que daríamos um passo forte para mudar os rumos do estado com uma nova plataforma econômica, um novo pensamento social, fazer os enfrentamentos necessários com a elite conservadora que existe no país. Quando Lula assumiu, veio a primeira porrada com a colocação de (Henrique) Meireles no Banco Central, tendo o país economistas marxistas e mais progressistas, enquanto o PT indica um dos maiores representantes dos banqueiros internacionais, inclusive ligado ao PSDB. Outro ponto negativo foi que, para garantir a governabilidade, se misturou com o PMDB, construindo relações espúrias, que o PT sempre condenou. Quero que vocês analisem os oito anos de Lula e os quatro anos de Dilma. Não houve nenhum grande enfrentamento com as elites. Desde o governo Collor (Fernando Collor de Melo), passando pelos governos de Fernando Henrique (do PSDB), houve uma desestruturação do Estado com o processo de privatizações, valorizando o que é privado e desvalorizando o que é público. Isso fez o Brasil recuar na questão social, que era nosso foco principal. O PT aderiu ao financiamento privado de campanha e às coligações fisiológicas, com o argumento de ganhar as eleições. Mas, em 1989, nos debates com Collor, Lula estava na frente, e com um discurso radical. Não entendi porque ficou diferente no último debate, muito recuado. O César Benjamim, que foi vice de Eloisa Helena, era um dos coordenadores da campanha de Lula e disse que houve um encontro dele (Lula) com Roberto Marinho (ex-dono da Rede Globo), chegando totalmente diferente para o debate. O PT mudou radicalmente. 

Exemplifique para termos ideia do que foi essa mudança...

A pauta trabalhista não foi debatida e votada no Congresso, da mesma forma aconteceu com as pautas dos movimentos sociais (quilombolas, pescadores, marisqueiras, entre outros), terras indígenas, a reforma agrária. Logo depois, Lula adotou o populismo de Getúlio Vargas (ex-presidente do Brasil), implantando o Fome Zero e o Bolsa Família, abrindo mão de outros princípios porque tinha uma visão eleitoreira forte, pois sabia que o Brasil tinha mais de 50% da população na extrema pobreza. Passou a ter uma relação forte com as grandes empresas, o agronegócio, os banqueiros, e também com setores médios e categorias de trabalhadores, além de sindicatos e segmentos pobres. Isso fez Lula e o PT deixarem de lado o programático para valorizar o pragmático. Seguiram uma linha parecida com a do PSDB. Se aliaram com setores poderosos, mas fez concessões para os movimentos sociais e cooptou lideranças para cargos importantes, segurando as lutas.

O Bolsa Família não é importante?

Não é que o Bolsa Família não seja importante para pessoas pobres. Mas tem que ter um limite e decrescer com a inclusão dessas pessoas no modelo de emprego e renda. O governo escreveu um projeto sobre o desenvolvimento do biocombustível, fazendo um trabalho de policultura para não exaurir o solo, implantando um processo de desenvolvimento, inclusão social e distribuição real de renda. É o que chamamos de revolução no campo. Mas, o que aconteceu foi que as pessoas plantam e a Brasil Ecodiesel, empresa do Piauí, vai lá e compra as plantações a preço de banana, leva para o seu estado e vende para o governo federal com valor agregado. Existiam vários projetos para o Semiárido, em setores como hortifrutigranjeiros e criação de caprinos. Mas, desestruturaram a EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola), que dava suporte às pequenas empresas, pequenos agricultores e aos agricultores familiares. Temos a ideia de reestruturá-la. Isso é importante para manter as pessoas no campo e descongestionar as cidades polos. Como você trabalha saneamento, saúde, educação, mobilidade e segurança em cidades superpovoadas? Não tem condições. Uma pesquisa do IBGE mostra que 70% das pessoas gostariam de voltar para suas cidades de origem, mas não voltam por falta de perspectiva. Será que é prioritário gastar R$ 7 bilhões com uma ponte, quando você poderia usar esse dinheiro para desenvolver o Semiárido, que pode se tornar árido se não for feito nada? Um estudo do Instituto Tecnológico Espacial, de São José dos Campos, com dados pluviométricos, já mostra que a cada 26 anos o Semiárido nordestino tem uma grande crise, como a de 2013. Todos sabiam e nada foi feito.

 

"Queremos uma auditoria da dívida pública no Congresso, uma auditoria cidadã. Cerca de 43% do Orçamento da União vai para pagamento e rolagem da dívida."


O que você acha das denúncias sobre corrupção no governo?

O problema da corrupção  é sistêmico e está dentro desse modelo de governabilidade. Tem o mensalão do PT, o mensalão do DEM e o mensalão do PSDB. Além disso, tem o esquema da Petrobras, vinculado ao PT, do Metrô de São Paulo, vinculado ao PSDB. Nesse cenário, o único partido que não tem ninguém envolvido e cassado é o PSOL, que tem feito denúncias e tem sido necessário. Não é à toa que os melhores deputados da Câmara Federal é do partido, como Jean Willis e Chico Alencar. O PSOL abre um debate real na sociedade. Queremos uma auditoria da dívida pública no Congresso, uma auditoria cidadã. Cerca de 43% do Orçamento da União vai para pagamento e rolagem da dívida. Maria Eliza Fatorele, auditora federal que puxou o assunto, diz que a auditoria internacional diminuiria entre 70% e 80% o valor da dívida. Ela participou desse processo no Equador e constatou isso. Apenas um credor contestou o resultado, mas perdeu porque os dados eram muito reais. Mas, ela foi perseguida pelo governo do PT e foi forçada a se aposentar antes do tempo. E se tornou assessora do deputado Ivan Valente, que abraçou a causa. Ela já produziu mais de mil páginas, mesmo o governo negando vários documentos.   

A Bahia após passar dos governos do PFL/DEM para a gestão do PT, está diferente?

O modelo político não é muito diferente do nacional implantado pelo PT. Assim como no governo federal, defendemos a auditoria na dívida da Bahia, que está em torno de R$ 15 bilhões, consumindo entre 8% e 10% do Orçamento. É importante lembrar que na época da privatização irregular do Baneb, no governo Paulo Souto, o Bradesco ficou com o bônus e o Estado ficou com o ônus, um prejuízo de 1,2 bilhão na época. Com juros, deve ser em torno de R$ 5 bilhões. Quando ele privatizou a Coelba, disse que o dinheiro era para investir na seguridade social, cuja dívida é de R$ 1 bilhão. O rombo atuarial (até as pessoas se aposentarem) chega a R$ 120 bilhões, impagável. Uma irresponsabilidade. Na época em que Waldir Pires deixou o governo, Nilo Coelho assumiu e trouxe Geddel Vieira Lima para a Ematerba, que foi o responsável pela destruição da EBDA e pela valorização do agronegócio. Isso continuou com Wagner. A EBDA está agonizando. O pessoal está há dois meses em greve por conta de um passivo de mais de R$ 300 milhões, mas que o governo se propõe a pagar R$ 80 milhões, em 80 meses. Tem ainda a dívida da URV (Unidade Real de Valor) com os servidores.

 

"O PT privatizou hospitais através das fundações estatais de saúde e das empresas brasileiras de serviços hospitalares"


E o que o PSOL propõe?

Qual o foco de uma gestão? Atender bem a população, que passa por valorizar o funcionalismo em todos os setores. Na verdade, o governo do PT resgatou tudo que condenávamos do carlismo. Veja Otto Alencar, o principal responsável pela degradação da saúde pública na Bahia. Em 1990, foi implementado o SUS, que deveria ser eminentemente público. O governador era Antônio Carlos Magalhães e o secretário de Saúde, Otto Alencar. Um sistema maravilhoso e até copiado pelo presidente dos EUA, Barack Obama. Otto saiu fazendo vários convênios privados, uma falha do SUS, que abriu essa possibilidade, mesmo que pequena. Ficou mais privados, com alguns convênios públicos. No plano federal, o PT privatizou hospitais através das fundações estatais de saúde e das empresas brasileiras de serviços hospitalares, que são focos de corrupção e reclamações das pessoas. Em termos de economia, somos o sexto PIB do Brasil, chegando a R$ 190 bilhões. Mas, a distribuição de renda é péssima. Há grande sonegação por parte das empresas, que são as grandes financiadoras das campanhas. Dinheiro tem, mas é preciso definir as prioridades e combater a corrupção. E só o PSOL pode fazer isso, porque não é subordinado a essas lógicas.

É possível compatibilizar melhorias na remuneração do Funcionalismo com a Lei de Responsabilidade Fiscal?

É um compromisso do PSOL pagar a URV. Estamos fazendo um estudo e consideramos que isso deve estar no PPA (Plano Plurianual) com um prazo definido para o pagamento. O grande problema que tem o Estado é muitos professores pelo REDA e pelo PST, que não é carreira. A pessoa fica esperando por algum afastamento. O REDA foi implantado pelo governo Paulo Souto para fugir da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Já tem entendimento da Justiça de que esse sistema se integra à LRF. Então, é abrir concurso público em todos os setores. Há um estudo de professores vinculados ao PSOL que mostra que o cumprimento do Piso Nacional custaria R$ 200 milhões, sendo que a disponibilidade de recursos dentro da LRF é de R$ 800 milhões. A questão é que quando você estabelece uma relação fisiológica, tem que dar emprego para contemplar os aliados. Se fizer uma apuração de gente que não trabalha e enxugar a máquina pública dá para valorizar os servidores sem ferir a LRF. Além disso, o governo deve fazer uma discussão com deputados e senadores para flexionar a lei quanto à realização de concursos públicos nas áreas de saúde, educação e segurança, por exemplo. Mesmo que ela tenha ajudado a equilibrar as contas dos executivos, foi criada para garantir os resultados dos credores.

 

"A ideia da gente é preservar a independência dos poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário)"

 

Como fazer alianças sem fisiologismo na Assembleia Legislativa?

Hoje vemos que tudo é na base do “toma lá, dá cá”. Na reforma administrativa recente, o governo Wagner criou mais 350 cargos para acomodar os partidos aliados. A ideia da gente é preservar a independência dos poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário), que devem ser respeitados em sua essência. No governo, vamos dialogar respeitando o Legislativo, para construirmos projetos de interesses da população. Temos que fazer alianças preferenciais com a sociedade e o povo. Para isso, pretendemos radicalizar o processo de participação popular nas decisões. Assim, conseguiremos fazer as coisas sem relações fisiológicas. No secretariado, teremos mais quadros técnicos, além dos quadros políticos. 

Como enfrentar o problema da violência?

Além de valorizar os policiais e as polícias, é importante aprovar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 300, que define o piso salarial nacional para policiais e bombeiros dos estados, a PEC 51, que prevê a desmilitarização das polícias. É importante também unificar as ações das polícias e federalizar a segurança pública.

Como o senhor avalia as pesquisas eleitorais e os baixos índices do PSOL?

Quando as pessoas conhecerem mais nossas ideias, o PSOL tende a crescer muito. Até porque toda nossa política está antenada com os anseios das manifestações de ruas e as lutas das categorias de trabalhadores. Sem a gente aparecer, temos 1%. É só nos conhecerem mais.

 

"O Estado está desestruturado e temos que reverter isso." 


Como anda a montagem do plano de governo?

Estamos conversando com as universidades, ONGs, entidades dos movimentos sociais. Estamos colhendo ideias para fazer planejamentos a médio prazo. O Estado está desestruturado e temos que reverter isso. Estamos discutindo com o Fórum "Salvador" e o Fórum "A Cidade é Nossa", debatendo um novo modelo de municípios e de Estado, numa perspectiva de transformação. Essas pessoas não são ouvidas por conta dessa política mesquinha. 

 



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