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Entrevistas

Jorge, o educador

Jorge Portugal, um dos professores e intelectuais mais respeitados do país, fala ao BTD sobre música, cultura, novos projetos e seus sonhos de transformação do país através da educação. Imperdível.

"A ditadura desmantelou a educação pública no Brasil"


Sonhador e inquieto. Professor e músico. Militante e empreendedor. Assim é Jorge Portugal. Entrevistado da semana no BTD, ele fala do sonho de a educação no Brasil ser a "prioridade menos um" do país. Mas fala também de cultura, de música, poesia e até culinária em seus novos projetos. Uma entrevista leve e deliciosa no seu novo espaço, o Varanda Vital, no Rio Vermelho. Vale conferir.

 

BTD - Como o senhor analisa a educação hoje no Brasil?

JP - Você fez uma pergunta que poderia ser a única da entrevista (risos). Eu posso falar por uma hora e meia e fazer uma palestra sobre este assunto. Mas vamos fazer uma síntese, se possível… Nós estamos muito longe, mas muito longe mesmo do que é o ideal. Mas nesses últimos 10 anos, 12 anos, nós já avançamos significativamente em relação ao que éramos. Eu perguntaria: qual foi a obra do governo de Fernando Henrique Cardoso? Resposta: Universalizou o ensino fundamental. Então, praticamente 90% de estudantes - crianças, né... - estão na escola, sem dúvida alguma, coisa que não acontecia, que era um cenário muito mais dantesco há cerca de 20, 25 anos. E o governo Lula veio e intensificou mais ainda esse processo. E agora? Agora nós estamos diante de um desafio do tamanho do mundo. Qual é? A qualidade. A quantidade foi resolvida. Gilberto Dimenstein chegou a dizer que “o ensino médio é a bomba social do Brasil”. Por quê? Você tem as primeiras séries, e você tem os alunos com uma assistência, eu diria, bastante razoável. Tanto é que se reflete nas notas do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). As séries iniciais têm sempre uma nota maior que as séries seguintes. Quando chegamos nas séries finais, aí o desânimo, a falta de assistência, o desconhecimento, a falta de capacidade de acompanhar conteúdos mais complexos, tudo isso vai se expressando na nota, no desempenho do aluno. Quando vamos, então, para o [ensino] médio - isso lhe dizendo que, daquele universo que ingressa no ensino fundamental, 50% chega ao curso médio. É brincadeira? Isso é uma máquina de triturar futuro. E essa turma chega [no ensino médio] com uma deficiência tamanha, que vai ficando pelo caminho. Esse é o quadro hoje. Infelizmente. 

 

Jorge Portugal

 

BTD - Nós universalizamos. Agora devemos quebrar a barreira da qualidade. E o que é que se pode fazer para atingir esse objetivo, sendo o Brasil este país com grandes demandas e, geograficamente, um país de dimensões continentais?

JP - Podemos fazer muitas coisas. E algumas experiências, inclusive, podem ser pinçadas como inspiração para o que poderemos fazer de forma ampliada e definitiva. Primeiro, a educação é uma obra que se desenrola com um certo variar no tempo. Quando eu faço palestras eu digo sempre que o prefeito poderia fazer um viaduto ligando aquela cidade às cidades vizinhas em coisa de seis meses, se dinheiro ele tiver para fazer aquela obra. Ele pode mudar o curso do rio ‘brincando’ em dois ou três meses, se verba ele tiver para fazer aquilo. São obras factíveis e que podem ser erigidas com uma certa rapidez desde que nós tenhamos recursos. Educação não é assim. Educação é uma obra que só se expressa e se mostra uma década ou uma geração depois. Por isso eu costumo dizer que o trabalho perfeito da ditadura foi ter desmantelado a educação pública do Brasil. Um trabalho tão perverso e perfeito na sua execução e pensamento - perfeito no sentido da perversão, mesmo, da crueldade -, que até hoje nós sentimos as consequências disso. 

BTD - E como o senhor identifica, em detalhes, as consequências deste trabalho da ditadura nos dias de hoje nas salas de aula?

JP - O desprestígio do professor, imediatamente. Professores maravilhosos foram banidos das salas de aula, do convívio da vida escolar. Ou exilados ou aposentados obrigatoriamente. Tem um caso emblemático que ilustra isso. Tinha um aluno da Universidade Federal da Bahia, do curso de Filosofia, que em um belo dia depois do golpe foi para a aula e, ao procurar o professor que era o seu iluminador, o mestre da geração dele, soube que este professor tinha sido cassado. Estava banido da universidade. Estava aposentado compulsoriamente. Sabe quem era esse aluno? Caetano Veloso. Meu conterrâneo Caetano Veloso. Aí ele volta pra casa mais cedo e o pai pergunta: ‘Meu filho, você não teve aula hoje? Você não foi para faculdade?’. E ele responde: ‘Não vou mais não, meu pai. Não vou mais’; ‘Por quê?’; ‘Porque cassaram o professor Hélio Rocha. Eu não tenho mais o que fazer lá’. Esse é um exemplo, não é? No Brasil inteiro, quantos Hélios Rochas a ditadura expulsou da escola? Baniu da vida acadêmica? E isso esvaziou a escola de quê? Da capacidade de pensar, de questionar o próprio país, a própria sociedade. Isso se deu também no ensino médio. Tiraram de lá Filosofia, Sociologia e Elementos de Psicologia. As três disciplinas que ajudavam na formação do pensamento crítico, sobretudo. Ou seja, ‘embruteceram' a escola.

 

jorge portugal

 

BTD - Mesmo anos depois a gente ainda não conseguiu superar isso?

JP - Ainda não, rapaz. Ainda não porque ainda não priorizaram a educação. Diferente de outros países que superaram o golpe e colocaram o tema educação na ordem do dia, nós ainda não conseguimos. Tiraram a classe média da escola pública. Tiraram, desencorajaram, disseram ‘não, vá para a escola particular. Vai ficar aí, se misturando com esse tipo de gente?’. Carimbaram a escola pública como um espaço do filho do pobre, aí abandonaram. É um pessoal que, naquela época, não teria força política para reivindicar e o espaço vai se degradar. E foi isso o que aconteceu. E o saldo 20 anos depois é esse grande buraco. Essa grande bronca que está aí.

 

BTD - O senhor, que convive com os estudantes de escola pública, percebe a consciência deles com relação a esse problema?

JP - Nem todos têm consciência. Nem todos. Se tivessem, estaríamos a um passo de fazermos uma revolução. Eu fico chocado, às vezes. O alunos morrem de alegria quando falta um professor e a aula fica vaga. Eles não sabem, coitados, que estão indo para um matadouro e assinando a própria sentença de morte deles mesmos. Isso por não estarem lutando por uma escola pública melhor. 

 

BTD - Essa inflexão que o senhor colocou tem prazo ou é uma coisa que ainda vamos esperar muito para acontecer? Recentemente a população foi para as ruas e pediu urgência nessas mudanças.

JP - Não só a população, mas o empresariado também. Há dois anos eu conversava com um megaempresário brasileiro e ele me dizia que não estava indo buscar apenas engenheiros na Coréia, no Japão e na Venezuela. Já estava começando a buscar mão-de-obra mais qualificada que não encontrava no Brasil. 'A universidade leva seis, sete ou até oito anos para me entregar um engenheiro. E eu não posso esperar esse tempo todo’, ele falou para mim. É preciso fazer alguma coisa com ritmo mais acelerado. Não só a população foi para as ruas pedir mudanças. As pessoas que movem o dinheiro no país começaram a ficar também impacientes. A economia pede essas mudanças.

 

jorge portugal

 

BTD – Mas, voltando a uma pergunta anterior, objetivamente, existem mecanismos para que essas mudanças mais urgentes realmente aconteçam?

JP - Existem, como eu lhe falei, algumas iniciativas. Uma, inclusive, foi ao ar agora no Bom Dia Brasil [da Rede Globo] há cerca de 15 dias. Conversei com Chico Pinheiro [apresentador do programa] e pedi para que ele colocasse aquilo no ar porque ninguém estava acreditando. Se você perguntar qual é, hoje, o melhor resultado da escola pública fundamental da Bahia? Chama-se Licínio de Almeida [cidade do sudoeste da Bahia, distante 667km de Salvador]. Alan Lacerda [prefeito da cidade] pegou aquele projeto de Cristóvam Buarque e colocou em prática. Um projeto que ninguém fala, que o relator engavetou, deu sumiço na discussão, no debate e as pessoas até ridicularizavam. Na primeira vez que eu falei aquilo na televisão, eu recebi chacotas, inclusive de políticos safados que estão por aí, no poder. Ele [Cristóvam] disse: ‘Muito bem. Vamos fazer um projeto de lei que todos os detentores de cargos públicos no Brasil – do vereador ao presidente da República – fossem obrigados a matricular seus filhos em escolas públicas’. Pronto. Começando dali a sete anos. Ele ainda teve essa generosidade (risos). Imagine o que iria acontecer com esses caras quando chegassem os sete anos do prazo e seus filhos e netos encontrassem uma rede pública decente como eles sempre encontraram na rede particular? Foi isso que Alan Lacerda fez! Ele assumiu o cargo de prefeito e matriculou as duas filhas dele na rede pública. Chamou o secretariado e disse: ‘eu já matriculei as minhas filhas. Vocês vão ficar sem matricular as de vocês?’. Aí os secretários começaram a ficar constrangidos e também matricularam. Aí o juiz da cidade disse: ‘Peraí. O que é que há? Eu também vou matricular a minha filha nessa escola pública’. Aí foi todo mundo matriculando, matriculando... comerciantes... Muito bem. A classe média voltou para a escola pública. Com poder político, inclusive, de pressão. O prefeito se associou a institutos que deram consultorias, como o Instituto Ayrton Senna, professor Robson Tenório, que deram a ele uma forma muito grande, enfim. Três anos depois esse cara colhe o melhor Ideb do Estado. A escola Pingo de Gente, que é uma escola municipal, é a melhor escola pública da Bahia no nível fundamental. Com tudo isso, sabe o que aconteceu? Há quatro meses ele me liga: ‘Professor eu tô ligando para te dar uma grande notícia’. Melhor, ainda? Qual é? ‘A última escola particular da cidade fechou’ (gargalhadas). Chico Pinheiro disse ‘é mentira! Você ta querendo me colocar em esparro!’. Eu falei: ‘então bote seus produtores na rua para ver se é mentira ou verdade’. Aí ele me disse: ‘Rapaz, temos que fazer essa matéria logo pra gente não perder isso’ (risos). E tá dando um zoom, um bumm, por que partiu de um cara, de uma iniciativa pessoal de um prefeito. Isso tornado determinação em lei, acelerava tudo.

 

BTD – E porque a gente não consegue fazer isso em nível nacional?

JP - Pergunte ao Congresso Nacional porque que esses projetos não saem da gaveta.

 

BTD - Mas nós não poderíamos ter outras iniciativas nesta mesma linha que não precisassem comprar essa briga com o Congresso Nacional?

Tem sim. Tem outro projeto do próprio Cristovam, que é, simplesmente, federalizar o ensino público no Brasil. É também rápido, o caminho. No momento em que o ensino público for federalizado, pronto. Eu falo do ensino médio e fundamental, porque o superior já é, né... Quando o nível médio e fundamental estiver federalizado, teremos um novo tipo de tratamento aos profissionais que orbitam essa área. Os profissionais vão ganhar o que ganham os funcionários da Caixa Econômica, do Banco do Brasil, enfim. Haverá uma equiparação e, portanto, uma condição para que ele possa investir nele próprio. Este é outro problema. Tem professor aí... meu Deus do céu! [respira fundo e continua] Ele não ganha o suficiente. Até porque ele trabalha três turnos para ganhar uma coisa relativamente decente. Com isso ele não tem tempo de prestar atenção ao mundo em redor. Ele não lê uma revista semanal, ele não lê um jornal um pouco mais conceituado... [respira fundo]... e olhe que jornal conceituado está difícil de se encontrar (risos). Dessa forma ele não fica plugado na contemporaneidade e não pode plugar o aluno dele. Só que o aluno dele já está na internet, e ele acaba não entendendo a linguagem. Às vezes ele quer trazer uma informação que acha nova e o aluno diz: ‘ah, professor! Isso eu já vi’. Entendeu como é? O professor começa a ficar receoso, reticente. Tem um cara aí chamado Mozart Neves, que é um educador, e também foi secretário de Educação de Pernambuco. Ele disse uma vez que um dos grandes dilemas da educação no Brasil é que nós temos uma escola do século 19, professores do século 20 e alunos do século 21 (risos). Então, se nós não conseguirmos fechar essa equação, o ensino continuará ficando dissonante, destoante. Então, é preciso que a gente comece a colocar a educação como prioridade menos um. Não é prioridade zero, não. É menos um mesmo, diante da urgência e dos problemas que enfrentamos. E olhos firmes para o ensino médio, porque é aí que está se dando um dos maiores massacres que você possa imaginar.

 

jorge portugal

 

BTD – Onde está a diferença entre o ensino público e privado no Brasil.

A principal diferença é a cobrança. No ensino público o professor falta, no privado o professor não falta porque no outro dia tem o pai do aluno na porta da escola para saber e reclamar porque o professor do filho dele faltou, já que ele está pagando caro àquela escola. No ensino médio, hoje, se você comparar, o nível dos professores não é muito diferente não. Você tem professores no ensino público que são verdadeiras jóias, dão verdadeiros shows em sala de aula. Enquanto no ensino privado você também encontra verdadeiros burocratas, que só vão ali para vender o peixe e ganhar aquela grana. Evidentemente que também temos no ensino privado grandes mestres. A questão da cobrança é o grande fiel da balança e nós precisamos mudar isso. Tem uma historinha curtinha para contar que ilustra bem isso. Eu fui dar uma palestra em Juazeiro. No dia seguinte eu fiquei andando ali pela orla, eu gosto de andar, e de repente me veio um monte de meninos de uma escola pública. Eles me reconheceram, fizeram aquela festa toda, tirando fotos e tal. Aí eu perguntei de que escola eles eram.  Eles disseram, era o nome de uma professora. Aí eles me perguntaram se eu não conhecia a escola deles. Eu falei que não, que são muitas escolas na Bahia e tentei justificar. Aí um deles disse que a escola era famosa, era a segunda pior do Enem na Bahia. E eles me disseram isso com um certo garbo. Aí eu disse, ‘vocês não devem fazer isso. Vocês estão me chocando. São 10h30 da manhã’. Eles disseram que era assim mesmo e que estavam queimando aula. Aí um deles se destacou e disse: ‘Eu não preciso daquilo ali não. Eu vou ser Daniel Alves’. Aí eu perguntei: Seu nome é Daniel Alves? Você tem o mesmo nome de seu conterrâneo?’. Ele disse ‘não, meu nome é...’. Aí eu disse ‘Não. Não vai ser não. Me perdoe que eu lhe diga isso. Daniel Alves só existe um. É dificílimo que apareça outro Daniel Alves. Mas agora eu vou te dizer uma coisa. O Brasil está precisando, está com um déficit de 312 mil engenheiros civis, para pagar uma média de 10, 12 paus por mês. Se você quiser, você pode ser um desses engenheiros. Se você quiser investir em você, você pode. Mas Daniel Alves você não será nunca’. Eles ficaram paralisados e depois disseram que nunca tinham pensado nisso. Me deram razão.

 

BTD – Vamos falar de arte, de música. Qual é a sua visão sobre essa extrema popularização do axé music, mas nesse formato qualitativamente questionável. Como o senhor vê a expansão desse estilo nas rádios e na internet?

Eu vou lhe confessar uma coisa. Eu sou do interior. Sou de Santo Amaro da Purificação. Eu fui criado também num ambiente em que eu ouvia muito rádio. E na Rádio Educadora de Santo Amaro, na Rádio Sociedade da Bahia, a gente ouvia Chico Buarque, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Valdick Soriano, Lindomar Castilho, a gente podia ouvir de tudo. De tudo. Você formava o seu gosto a partir da empatia com aquilo que você está ouvindo, ou estava a fim de ouvir. Ou uma música mais popular, como se chama, ou um estilo mais elaborado. Mas o importante é que você tinha a opção de escolha porque você ouvia de tudo. Depois houve uma virada. Uma vez, já em Salvador, com um conhecido meu que era coordenador de uma rádio de muita audiência, recebi uma encomenda. Eu ainda compositor nativo, ele me disse: ‘Jorge, eu quero que você componha umas duas ou três lambadas’. Eu perguntei a ele o porquê daquele pedido e ele me disse o seguinte: ‘Por que ano que vem o estouro vai ser lambada’. Eu insisti na pergunta e ele me explicou: ‘Porque eu vou pegar minha rádio, que tem a maior audiência, e vou botar lambada para tocar por 20 horas por dia. Eu vou fazer o povo gostar de lambada’. Não deu outra. Foi aquele boom de lambada. Ali você já percebia que tinha uma coisa diferente no ar.

 

jorge portugal

 

BTD – E esse ar tinha cheiro de jabá?

(risos)... Os caras estavam impondo um determinado gosto, uma coisa de indústria inserida no cenário musical baiano. Daí para o jabá [propina] foi um pulo. Aí o empresário percebeu que quem fazia o gosto era o programador. Então ele dizia: ‘Programador, eu te dou tanto e você põe o meu artista para tocar tantas vezes porque eu quero, eu preciso colocar esse meu artista em evidência’. E foi assim que o rádio virou, entendeu? Deixou de ser aquele espaço razoavelmente democrático. Hoje se o cara quiser fazer sucesso, ele faz sucesso na hora que ele quer. Pouco importa que o artista tenha algum valor. Aliás, artista, vírgula! Que o sujeito tenha valor nenhum. Nem que ele cante, nem que ele seja performático... coisa alguma! Ele simplesmente vai ter a sua música tão tocada pelas principais rádios – já que as pessoas compram logo esse circuito todo, com as tevês, também, que fazem o seu papel – e isso vai se consolidando nessa lógica, infelizmente. Aí vira um mega sucesso e você entende o porquê de tanto ouvir ‘Lepo-Lepo’, isso vira até jingle de campanha de sindicato. Rebaixou o nível. A verdade é essa. Essa música está aí há 25 anos. Não gostam que eu diga não, entende? Mas eu não estou falando como artista, não. Estou falando como educador. Ela rebaixou o repertório, a capacidade de pensar, o que você imaginar, entendeu? Rebaixou mesmo. Os meninos não têm capacidade de pensar. Porque você vai pensar no Lepo Lepo? Porque você vai pensar em ‘mais em cima, mais em cima, mais em cima; mais embaixo, mais embaixo, mais embaixo’? Você pensa em que nisso? No que é que isso? Nada! Você vai ficar com uma área do cérebro simplesmente inutilizada com isso aí. E acabou.

 

BTD – Mas a gente tem um número relevante de artistas inseridos nesse contexto que sustentam esse mercado. E isso fez com que outros artistas de grande qualidade saíssem da Bahia para encontrar espaço em outros estados. Enquanto isso, alguns locais incentivam mais a produção da música de raiz. Você acha que a Bahia embruteceu culturalmente?

Os exemplos que você citou nós encontramos em Pernambuco e no Pará, onde existe a preservação da música de raiz nas rádios e nas produções como um todo. Isso é fato. Já a sua pergunta sobre o embrutecimento da cultura baiana, eu digo a você que sim, infelizmente. Eu estava participando, há uns 15 dias, de um documentário. Um documentário sobre Antônio Pitanga. A filha dele, Camila, esteve aqui na Bahia e está produzindo um documentário sobre o pai, sobre a trajetória dele como ator. Ela convidou algumas pessoas para participar de uma mesa e eu estava entre essas pessoas que começaram a falar dessa Bahia que gerou Antônio Pitanga. Que Bahia era essa? Estavam lá Florisvaldo Matos, Capinam, Roberto Santana e Nonato Freire, pessoas que viveram essa época. Eu e Roberto, de uma outra época, mas que estamos atentos a isso. É o seguinte: olhando para esta Bahia [apontando para baixo], você não acredita que aquela Bahia já existiu (risos). Uma Bahia da qual saiu Antônio Pitanga, saiu Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Del Rey, saiu o que você imaginar para depois mandar na arte brasileira. Tom Zé, Glauber, que foi um furacão, entendeu? Que Bahia foi aquela? Foi uma Bahia pensada e montada por um reitor chamado Edgard Santos. Não foi o governador. Foi um reitor. Ele foi um reitor-estadista, que pensou a universidade, trouxe os cursos de formação, montou a universidade e trouxe para a Universidade Federal o que havia de mais vanguarda em termos de dança, música e de teatro, pegou essa meninada e formou. O resultado foi isso. Até hoje você tem resultados positivos dessa Bahia. Quando você, por exemplo, vê um Wagner Moura, um Lázaro Ramos em ação, esses já são filhos da terceira geração dessa Bahia que começou com Edgard Santos. Mas aí veio o ‘desmatamento’ da Ditadura. Aí você acabou com o Colégio Central, com a Universidade, com os espaços de cultura que a cidade teve. E você colocou os veículos de comunicação como os carros-chefes da homogeneização da cultura.

 

BTD – O senhor citou os espaços públicos de cultura em Salvador. E hoje nós vivemos uma situação de disputa entre esses espaços que ainda sobrevivem e os shoppings que se espalham pela cidade. Vem mais um aí, na orla. Um exemplo é o Cine Glauber que resiste a este assédio no coração de Salvador. Como o senhor percebe essa disputa desigual?

É uma outra lógica, né? Uma outra lógica urbana que estamos vivendo e vivenciando e que é um desastre, pra mim. Porque quem nasceu e foi criado no interior, viveu sua infância e adolescência conhecendo as pessoas, falando com as pessoas, se vendo naquele espelho, que é a sua comunidade, já vem para a cidade grande e sente uma estranheza. As ruas são maiores, são mais largas, as pessoas não se vêem com certa freqüência. É o lance da música Sampa, de Caetano. Aí depois, em nome de uma certa segurança, mas que é uma segurança para uma determinada classe, construir grandes caixotes pós-modernos que chamam de shoppings. E querem colocar toda a vida ali. Ou seja, querem tirar as pessoas das ruas. A cidade de Salvador está tão apartada que tem menino que nasce, cresce e pode até morrer sem conhecer o outro lado. Sem saber onde fica, por exemplo, o Taboão. Ficam sem saber, por exemplo, onde fica a Liberdade. Ouvem falar nas músicas. Mas é capaz de que quando eles viajam – eles viajam muito – o gringo perguntar onde fica a Liberdade, o Curuzú, o Ilê Ayê, eles não saberem exatamente responder onde fica. Porque, morando em Salvador ele nunca foi nesse lugar. Eu tive alunos, de um certo colégio da elite baiana, que não sabiam chegar no Pelourinho de carro (para e aperta as mãos em tom de espanto). Eu os convidei para uma manifestação pela paz, que iria ocorrer. Eu falei para eles na sala, que era importante ir, uma questão de cidadania, para eles também conhecerem a cidade deles e lugares que eles não iam sempre. Aí um deles me chamou no canto e pediu para eu ir na frente de carro e eles irem me seguindo porque não sabiam chegar na Liberdade. Eu achava que eles não fossem sempre. Eles, de verdade, nunca tinham ido.

 

BTD – Antes da entrevista começar o senhor falou que parou de compor. Perdeu a inspiração?

Rapaz, eu não perdi a inspiração, não. É que a cabeça fica cheia de coisas. Quando a cabeça fica cheia de preocupações, a inspiração sai pelas portas dos fundos. Pode crer. Inspiração é o resultado de uma cabeça ociosa, não é? De ócio criativo, como diria Domenico De Masi. Aí tudo que passou a acontecer na minha vida foi isso: trabalho, preocupação, ritmo acelerado. Aí a música não vem, só quando me exigem. Bethânia vai entrar no estúdio: “Eu quero uma música. Se vire. Faça. Escreva, passe pra Roberto para ele colocar a melodia. Mas eu gostaria de dizer isso. Como eu não sou letrista, você vai dizer isso pra mim”.  Aí eu não tenho jeito. Não tenho como dizer não a uma rainha como Bethânia. E eu sou obediente. Eu vou e componho. Mas aquela criatividade espontânea, que a gente sentava numa manhã e fazia duas ou três músicas, não.

 

BTD – A parceria continua firme?

Com Roberto [Mendes], dessa forma que eu te disse antes. Mas essa de fazer duas, três músicas, não temos tido condição de fazer. Tem um amigo nosso, paulistão – tô falando da década de 70 do século passado – que disse uma coisa pra gente interessante, uma vez. “Porra bicho, o pessoal daqui quando não tem o que fazer, faz música” (risos). Eu nunca esqueci essa expressão. Hoje isso seria uma violência.

 

BTD – Porque Santo Amaro é aquele celeiro de artistas de qualidade? O que é que tem naquela água?

(risos) Antes de estar no currículo no curso médio, implantada pela ditadura de Vargas, lá atrás, nos anos 1930, música já era matéria obrigatória nas escolas públicas de Santo Amaro. Desde ‘mil oitocentos e alguma coisa’. Já era matéria obrigatória. Tinha Português, Geografia, História, todas as matérias obrigatórias e música.

 

BTD – E olhando esse cenário, o senhor imagina quantos talentos o país perdeu por não fomentar o ensino da música nas escolas?

Ô, rapaz, não fale não. Só lá na minha cidade, a quantidade de gente com talento mas que não teve uma chance... é de doer, é de chorar. E voltando à escola, por que eu estava lembrando da minha escola secundária, em Santo Amaro, cuja diretora tinha a seguinte visão: “Matemática vale tanto quanto o Teatro. Química  vale tanto quanto música”. Entendeu? Não tinha diferença. E ela incentivava mesmo. Festival de música tinham uns seis por ano. Tinham grupos de teatro e ela mandava buscar diretores aqui em Salvador para iniciar a galera. Coral, entendeu? Era uma febre, uma efervescência muito grande. E isso foi pós-Caetano Veloso. Nós temos 14 anos de diferença. Então, não parou nunca de rodar nesse sentido.

 

BTD – Você marcou história nos cursinhos pré-vestibulares no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Desde o Einstein, na Avenida Sete de Setembro. O que você acumulou de experiência desse período até chegar ao Aprovado?

O Einstein (risos). Eu acho que esse período serviu de preparação para a gente chegar no Aprovado. Acho que tudo acabou desaguando no Aprovado. Mas lá eu não sabia que as coisas iriam acontecer. O Einstein foi a tentativa de fazer um curso pré-vestibular em um modelo totalmente subversivo aos modelos adotados naquela época. Primeiro que eu tinha recebido a notícia que estariam construindo um cursinho pré-vestibular com uma sala de aula para 400 pessoas. 400 pessoas! Um número médio para uma sala de aula de cursinho é de, no máximo, 150 a 200 pessoas. Um montão de gente, pode ter certeza. E nós decidimos fazer esse curso para 70, 80 pessoas. Isso já foi um baque muito grande. Claro que isso, a médio prazo não iria dar certo (risos). Iria faltar dinheiro. Mas o interessante que nesse nosso cursinho tinha uma biblioteca com mais de dois mil títulos, oficina de dança, tinha cineclube, entendeu (risos) e às sextas–feiras tinha sempre um show com artistas convidados. O negócio era tão bom, bombava tanto, que um dia eu tô passando lá e um cara me segura aqui pelo braço e me pede para eu dar uma oportunidade para ele tocar. “Deixa eu tocar uma música aí. Deixe eu dar uma canja aí para eu mostrar meu trabalho”. Eu disse ‘claro, vá lá. Você tá com o violão aí? Então vá lá’. Sabe quem era esse cara? Carlinhos Brown (gargalhadas). Carlinhos nunca tinha se apresentado publicamente e lá ele tocou a música dele. Eu disse ‘fica aí, Brown. Fique à vontade’. A gente fazia a cotização para ajudar cineastas baianos que não tinham condição de bancar inteiramente uma produção, a gente ajudava. O Superoutro [filme do cineasta baiano Edgar Navarro] precisava participar de um festival nacional, mas precisava mudar a bitola, porque na bitola em que ele tinha sido feito não dava para participar. Edgar não tinha dinheiro, não tinha grana, então nós fizemos um movimento e conseguimos arrecadar. Depois nós projetamos o Superoutro lá para os alunos assistirem com um valor um pouquinho maior para arrecadar essa grana. Então o Einstein nasceu como um motorzinho de cultura, sim. Eu me lembro que Gil foi dar uma palestra lá. Em maio, ao invés de fazer a Semana da Abolição, nós fazíamos a Semana Bob Marley. E o resultado foi o melhor possível do ponto de vista pedagógico. O que tem de gente que foi Einstein e decolou não está no gibi. Um time de professores que era um sonho. Um sonho.

 

BTD – E essa nova experiência na área gastronômica, você trazendo as experiência da região do Recôncavo para cá. Como é que está se dando isso aqui neste espaço?

O Varanda Vital é um espaço de Vital e Rita. Eu sou apenas um incentivador desse negócio. Eu tenho o trabalho de articular isso, porque Vital é um dos maiores conhecedores da culinária do Recôncavo. Ele não sabe apenas fazer a comida, ele conhece a origem daquilo e como aquilo foi criado, as receitas, ele conhece a história dos pratos. Ele já esteve em Salvador antes, no Pelourinho, com grande sucesso. Basta dizer que Regina Casé, Olivier Anquier, entre outros, são tietes de Vital. Com o esvaziamento do Pelourinho, ele ficou numa situação muito difícil e voltou para Santo Amaro. E lá ele não teve condições de continuar no mesmo padrão. Eu encontrei com ele lá querendo voltar a ser motorista de caminhão, que era a profissão original dele. Aí eu disse ‘Peraí, Vital. Não pode ser assim. Eu vou conversar com Rita, nós temos um espaço no Rio Vermelho com nove salas e uma varanda. Se ela topar você pode voltar para Salvador, pegar umas duas ou três vagas no espaço e voltar a fazer o que você sabe’. Rita topou, eles se associaram, ela faz a gestão. Ele, como todo artista, não sabe porra nenhuma de gestão, ele sabe é criar, e as coisas estão começando a acontecer. Mas eu vou entrar agora, como eu entrei no Einstein, pensando numa programação cultural para este espaço. Nada de muita coisa, mas uma programação legal.

 

BTD – Você pensa com sua cabeça de artista...

Eu tenho três conteúdos, já. Olhe que isso aqui é inédito, heim! Fazer na quarta-feira, aqui, o Poesia na Varanda. Recital, com grandes poetas, com quem tem uma obra e nunca mostrou, entendeu?  Eu sei que tem muita gente boa por aí que ainda não publicou, fora os consagrados, que não têm espaço. Tô falando de Florisvaldo Matos, tô falando de Capinam, de Aninha Franco, Mírian Fraga, entendeu? A cada semana você pode ter um convidado, você pode ter um acompanhamento musical, você pode ter um ou dois atores recitando obras importantes, enfim. Seria mais ou menos um sarau. Mabel Veloso, imagine... Na quinta-feira tem uma coisa que eu sonho em fazer há muito tempo e ainda não fiz. Já pensei isso para programa de TV, para outras coisas, mas ainda não fiz, que é o Encantadores de Sons, que seriam grandes artistas representantes de suas raízes culturais, que estão bem próximas de suas raízes musicais e estão bem próximas delas. Você tem o próprio Roberto Mendes, que já quer vir começar aqui. Você tem Mateus Aleluia, Gerônimo, Xangai, enfim. Você tem uma pá de nomes aí importantes. Lazzo, nossa senhora. Além dessa galera que está chegando aí também.

 

BTD - Mas, voltando à música baiana...

A música baiana, meu filho, ainda é um cara que iria fazer 100 anos se estivesse encarnado entre nós no dia 30 de abril. Esse é que é o orixá maior da música baiana. O resto é santo forte. Eu estou falando de Dorival Caymmi, dele mesmo. A música baiana é um cara que tem 75 anos e ainda é a vanguarda da música brasileira, dando show em muitos meninos que estão começando e se acham roqueiros avançados. O nome desse outro cara é Tom Zé. A música baiana ainda é Gilberto Gil, que acabou de lançar um disco que me deixou de 'quatro', chamado Gilberto Samba. Eu vi, no último domingo, e não consegui acreditar que alguém pudesse ter aquela ousadia de regravar João Gilberto e fazer o que ele fez. Pra mim, a música baiana é isso. O resto é ruído. É barulho. 



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