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Entrevistas

Ela parou uma guerra com greve de sexo

Em Salvador para participar de uma conferência, a líder feminista liberiana Leymah Gbowee concedeu entrevista coletiva no Museu da Misericórdia, no Pelourinho, em Salvador. A ativista em defesa das mulheres e das crianças ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2011. Apelidada de “Guerreira da Paz”, Leymah falou sobre sua trajetória, o papel das mulheres no poder e mostrou estar acompanhando os acontecimentos no mundo, destacando as manifestações recentes no Brasil.

Como se sente ao ter contribuído para mudar a história em seu país?

Leymah Gbowee – Primeiro, quero dizer que estou feliz por estar aqui em Salvador, lugar para vieram meus ancestrais. Também feliz pelo fim da guerra que durou 14 anos. Mas, não se pode comemorar o tempo todo. Temos muitos desafios pela frente. São muitos os problemas vividos pelos liberianos, como falta de saneamento básico, sistema educacional frágil, extrema pobreza, entre outros. Ainda vivemos sob condições que produziram a guerra. A celebração acabou, mas temos que trabalhar muito para mudar a infraestrutura do país.

A senhora imaginou que sua luta ganharia repercussão mundial?

Leymah Gbowee – Nunca pensei que estaria dando entrevistas em vários países e que estaria aqui em Salvador. Quando começamos, queríamos mudar uma situação local e não pensávamos que teríamos o reconhecimento internacional. Éramos as mulheres estupradas. Nossas crianças, recrutadas pela guerra. A gente tinha que fazer algo para mudar aquilo. O que fizemos foi por nossas mulheres e por nossas crianças.

Como a senhora vê a violência contra a mulher no Brasil?

Leymah Gbowee – O que vemos são os líderes dizerem que seus países são civilizados. Medimos isso pela capacidade de um país proteger seu povo. Para o Brasil ser civilizados, as mulheres e as crianças devem ser protegidas. A violência contra a mulher é global. É importante ver que um estuprador na Índia foi condenado. É o que queremos. É preciso ver que os direitos da mulher são iguais aos direitos humanos.


Seu pais é governado por uma mulher. É diferente o exercício do poder?

Leymah Gbowee – A liderança feminina traz muita esperança para as mulheres. Meninas que veem uma mulher presidente, começam a acreditar que podem estar lá também e podem ter um futuro melhor. As decisões são mais pensadas. Nos países governados por mulheres há uma preocupação maior com o lado social. Mas, temos que ter claro que uma mulher presidente não significa que o cenário político evoluiu. As estruturas ainda são predominantemente masculinas. As bases da sociedade ainda estão sob o patriarcalismo. Uma mulher na Presidência tem que trabalhar isso. As dificuldades são maiores para decidir. 

A religião teve papel fundamental no seu trabalho?

Leymah Gbowee – Penso que faço o trabalho que Deus determinou para mim. Vejo a confirmação de Deus com o que realizo. Digo para os jornalistas que faço o trabalho de Deus. Uma vez, realizamos uma campanha com crianças pobres durante um período de muita chuva. Oramos muito e tivemos quatro dias sol, contribuindo para que a campanha fosse um sucesso.

Quais os caminhos para se diminuir a criminalidade?

Leymah Gbowee – Se observarmos os países com baixo índice de violência e criminalidade, vemos que os serviços sociais são bons; Os jovens têm perspectivas e atividades constantes; o sistema educacional funciona bem; as pessoas comem, pelo menos, três vezes ao dia. O crime é resultado da pobreza. Nas áreas mais pobres, casais brigam mais e as drogas surgem como um modo fácil de ascensão econômica.

Como a senhora analisa a pouca presença da mulher no poder?

Leymah Gbowee – Política é algo caro. No meu país, por exemplo, tem que ter dinheiro para comprar votos. É preciso mudar esse modelo, ainda muito dominado pelo sexo masculino. Mulheres que ousam entrar na política, enfrentam muitas discriminações ainda. A pouca presença feminina nos espaços de poder não tem nada a ver com falta de autoconfiança, mas com a estrutura política vigente.

A senhora tem acompanhado os acontecimentos no Brasil? Como vê as manifestações recentes?

Leymah Gbowee – Eu estava em Portugal em uma atividade com jovens e eles me perguntaram sobre isso. Respondi que me dá esperança ver que a juventude no mundo não se acomodou e não permite que políticos tratem o país como suas fazendas. Nenhum jovem pode dizer que o governo não ouviu suas reivindicações, pois foi algo muito expressivo. Mas, não é preciso usar a violência para reivindicar. Basta definir o que se quer para exigir a dignidade e o respeito que merecemos. Os jovens devem se perguntar que legado querem deixar: criar uma consciência crítica sobre a realidade que vivem ou serem caracterizados como vândalos? Mas, é sempre importante lutar para mudar algo que se considera ruim.



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