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Entrevistas

Ney Campelo faz um balanço da Copa

Ele é comandante da Secretaria Estadual da Copa, responsável por articular as ações de governo para o evento de 2014, bem como para a Copa das Confederações, encerrada em 30 de junho. Nessa entrevista ao BAHIA TODO DIA, realizada dia 3 de julho, Ney Campelo fala sobre os erros e acertos do evento findo e do que pode ser feito para melhorar para o ano que vem. Ele arrisca avaliar serviços, fala sobre legado e reconhece a força e o papel das manifestações populares.

DO BAHIA TODO DIA | 11/07/13| 18h17

 

Qual o balanço que o senhor faz da Copa das Confederações? 


Reunião entre a FIFA e o COL (Comitê Olímpico Local) emitiu pontuação para Copa das Confederações no Brasil, com nota entre 8 e 10. A competição foi 80% satisfatória, significando que tivemos mais acertos e temos menos coisas para corrigir no que se refere à operação do evento. Passamos por um teste de fogo, tendo que realizar uma competição internacional de grande complexidade, de um proprietário privado (a FIFA) e com legislações nacional, estadual e municipal, que precisaram ser ajustadas em função do que a entidade pretendia e o país, que tem um marco regulatório. Foi positivo. 

Mesmo com os protestos que aconteceram nos dias do evento? 

Havia um cenário nacional difícil, por conta das manifestações, e nós conseguimos fazer o evento dentro das expectativas que a Fifa e nós mesmos nos colocamos. Foi um duplo esforço, de operar bem a competição e lidar com a contestação ao torneio (mesmo que não tenha sido a principal bandeira dos protestos). Fizemos bem na Bahia. Os torcedores chegaram e saíram do estádio com poucos problemas, superando gargalos de mobilidade e acessibilidade. Os serviços aos torcedores funcionaram, os voluntários prestaram um bom trabalho (a maioria dos consultados disseram que foram bem orientados e bem atendidos, as baianas deram um show na venda dos seus quitutes. Salvador foi a única das cidades-sede onde se vendeu alimentos na área dos patrocinadores. O aeroporto que era uma grande expectativa, atendeu bem aos turistas. A rede hoteleira foi bastante elogiada. Os campos de treinamentos foram bastante elogiados pelos j ogadores, tanto o Barradão quanto Pituaçu. O jogador italiano De Rossi afirmou na TV que o estádio era belíssimo e digno de uma decisão de uma competição como essa. 

Quais os pontos considerados negativos e quais os positivos? 

Aperfeiçoamentos e mudanças devem ser feitos tanto pela Fifa quanto pelos poderes públicos (União, Estados e Municípios). No lado da FIFA/COL, destacaria duas coisas: 1) comercialização e distribuição de ingressos, que não funcionaram a contento. Ingressos ficaram represados e a distribuição muito em cima da hora. Isso prejudicou quem comprou os bilhetes e fomentou a ação de cambistas; 2) a logística de alimentação e bebidas no interior do estádio, com muitas filas. Seria possível usar a internet, com as pessoas comprando online e imprimindo seus vauches. Do lado dos governos, primeiro temos que melhorar a comunicação com a cidade. Especialmente no que se refere à sinalização nas ruas (estivemos aquém e as placas estavam sem muita nitidez). Compreendo a dificuldade da Prefeitura para responder a essa questão por estar em início de governo, sem que a administração anterior tivesse deixado orçam ento e um planejamento para isso. É preciso também mobilizar mais a cidade na discussão da Copa, informar mais sobre a competição. Por exemplo, poderíamos não ter os problemas com o entorno (os bloqueios) se houvesse informação com mais antecedência e eficiência para os moradores. Equacionar questões da mobilidade, concluindo as obras no aeroporto, no porto a previsão é de ser entregue em agosto. Faltam as quatro rotas de acesso ao estádio, as obras na Avenida Paralela, como a duplicação da Avenida Pinto de Aguiar e os viadutos do Imbui. Torcer para que, pelo menos, a Linha 1 do metrô seja concluída. Podemos utilizar a área da Rótula do Abacaxi como bolsão de estacionamento, com ligação para a Arena, usando o metrô para ir e voltar.  A FIFA deve fazer um relatório com a avaliação de todos os itens para a realização da Copa. Nós vamos elaborar o relatório da Secopa com todas as observações sobre os ajustes que serão necessários para a Copa de 2014. 

Muita gente reclamou da dificuldade do uso de tecnologia... 

O processo de implantação da tecnologia 4G ainda é inicial e não de forma plena. Ai você encontra as diferenças no uso muito comum de aparelhos nos EUA, como Iphone e Ipad, e que nos exige adequar essa questão em 11 meses. O governo federal precisará interferir na solução do problema. Aqui, temos que ver com a Oi para garantir a tecnologia não só no estádio, que funcionou bem (não tivemos muitas reclamações). Nos jogos que fui passei mensagens, postei coisas no face, tirei fotos. Mas não é ainda o padrão que desejamos. A banda larga precisará funcionar em áreas importantes da cidade, como aeroporto, rodoviária, hotéis, os campos de treinamento para os jogadores e membros das equipes. 

Como evitar a ação de cambistas na venda de ingressos? 

A primeira medida é antecipar bastante a venda dos ingressos. Inclusive, a FIFA já disponibilizará os bilhetes para Copa no mês de agosto. Foi um absurdo ver um ingresso no Maracanã sendo vendido a R$ 9 mil e pessoas vendendo suas cortesias. É preciso vender bem. Muita gente reclamou que comprou a categoria 1 (mais caro), mas assistiu o jogo do ponto mais distante do campo. Enquanto isso, alguém que comprou o mais barato ficou perto do campo. Outra medida é distribuir com antecedência os bilhetes para as pessoas pegarem, em mais pontos de entrega de ingressos. Além disso, devemos ter uma fiscalização mais rigorosa. 

A hotelaria comemorou os bons resultados. Quais outros setores foram beneficiados? 

O setor de hotelaria teve ocupação de mais de 90% dos leitos. A área de entretenimento e de apoio ao turismo se beneficiaram, como serviços de van, casas de shows, restaurantes. O comércio reclamou um pouco em função dos feriados. Pelas circunstâncias, a decisão foi correta. Se tivessem sido mantidos como dias normais, coincidiram com as manifestações e teríamos problemas mais acentuados. Mas, como temos 11 meses, devemos planejar melhor essa questão, ouvindo os setores do comércio. 

Para 2014 nós vamos ter ganhos no setor de mobilidade? Se as principais obras não estiverem prontas, haverá um plano B? 

A Copa das Confederações já exigiu um esforço grande em inteligência de tráfego, que funcionou bem. Vamos fazer uma revisão do plano de transportes usado nessa competição, ampliá-lo, considerando os planos A (com as obras prontas) e B (se elas não ficarem prontas). Temos uma vantagem que foi a mobilidade ter ganho mais importância com as manifestações. Os governantes perceberam que é necessário dar maior celeridade às obras. 

A Arena Fonte Nova passou no teste? Tivemos problemas por causa da chuva e soltaram pedaços do piso da arquibancada móvel. 

Questões como as goteiras e o problema na arquibancada móvel não ofuscaram os aspectos positivos no novo estádio. Os dois episódios não acarretaram nenhuma implicação para a segurança e o conforto do torcedor. No caso da arquibancada o que aconteceu foi um afastamento de 5 cm de fenda em um dos corredores do piso. Foi corrigido no mesmo momento, sem precisar interditar o local. Mesmo assim, já notificaremos a empresa. Tem que haver manutenção antes e depois dos jogos para evitar problemas. 

Muita gente reclamou dos preços da alimentação e bebidas... 

As cidades-sede devem se manifestar sobre isso. É claro que não podemos impor. Não somos os responsáveis pela competição. É como no Festival de Verão, por exemplo, onde não poderíamos dizer que o ingresso não pode ser R$ 50,00, uma vez que é um evento privado, como as competições da FIFA, que é quem define os preços. Mas, devemos ponderar. Quem sabe, a entidade não percebe que valores menores pode vender mais?  Muita gente disse que não comprou por conta dos preços. Também não podemos pensar que será como antes. Nesse caso, trata-se de um espetáculo que tem um custo. Entretanto, não precisa um produto sair de R$ 2,00 para R$ 6,00 ou R$ 9,00. 

E as manifestações, que tiveram como um dos focos os gastos com a Copa? Têm lições para os poderes públicos? 

É como a própria presidenta Dilma falou: “A voz das ruas precisa ser ouvida”. E acredito que já está sendo, pois algumas medidas já foram anunciadas, como os pactos com estados e municípios, e outras que deverão acontecer. Foram manifestações inequívocas de insatisfação popular, e não dá para fechar os olhos. Penso que a Copa se tornou uma espécie de estuário dos protestos pela visibilidade que proporcionou. Por isso, reforço a tese de que a comunicação com a população precisa crescer muito mais, para explicarmos os legados que ela deixará para as cidades. Infelizmente houve a associação de que não se tem educação e saúde de qualidades, mas tem uma Copa sofisticada. Temos que fazer esse debate com a população de que esse evento sofisticado pode redundar em obras estruturantes e investimento nas pessoas. Ou seja, legados que justifiquem os investimentos que foram realizados. 

Mas, e este legado, cadê? O que podemos guardar da Copa das Confederações? 

Tem os de obras em infraestrutura, que correspondem a 75% dos investimentos feitos. É importante não comparar os números da Alemanha com os do Brasil, por exemplo. A Alemanha já tinha um sistema de mobilidade urbana completo e de alta qualidade, em comparação a um país que está começando a fazer isso. Quando a gente fala em metrô, BRT e VLT, estamos falando em obras estruturantes que a Copa ajudou a acelerar. Mesmo que elas não fiquem totalmente prontas para 2014, ficarão para a sociedade. Outro exemplo é que Belo Horizonte tinha poucos hotéis e agora está construindo dezenas de novos empreendimentos. E aqui, no caso do metrô? Será que se não tivesse a Copa, estaríamos perguntando se estaria pronto até 2014?  Ou não estaríamos nem discutindo prazos? A competição tem essa capacidade indutora, pois estabelece datas e impõe aos agentes públicos o cumprimento de cronogramas. 

O senhor falou de mobilidade e hotelaria. Mas se falou antes de muito mais coisas... 

Além disso que falei, temos o que chamo de investimentos intangíveis, como a qualificação profissional, que deveríamos dar mais atenção e não fazemos. Governos e empresas sentiram que precisam investir mais em qualificação. Os estrangeiros elogiaram os estádios, mas disseram que não conseguiram se comunicar melhor. Quer dizer, o comércio não pode apenas se preocupar em abrir as lojas durante a Copa de 2014, mas qualificar em idiomas o seu pessoal, por exemplo. Esse é um outro legado: a abertura de oportunidades, que já estão ai, com cursos oferecidos pelo Senai, Senac, Sebrae, Secopa, Pronatec, Setur e outras instituições estão oferecendo. E o legado das relações, de receber com eficiência e qualidade as pessoas. Isso ainda é um problema muito sério entre nós. Parte desses legados será perceptível até 2014. Aí, a população fará uma revisão dessa ideia – ao meu ver, preconceituosa e limit ada - de que a Copa só trouxe problemas. As demandas sociais são uma realidade nossa, mas colocar todas elas na conta da competição não é prudente. Outra parte será percebida no pós Copa, como algumas ideias que estavam nos cartazes das manifestações: “Queremos hospitais e escolas no padrão Fifa”. Pode ser paradoxal, mas é um reconhecimento da população de que esse ‘padrão Fifa’ é algo sofisticado e de qualidade. O povo quer que os hospitais e as escolas sejam assim. No plano do entretenimento, ficará o legado da profissionalização dos nossos eventos, que representam importante fonte de receita para municípios e estados, como é o Carnaval. 

E dá para comparar? 

Temos que perguntar porquê a FIFA consegue R$ 150 milhões da Coca-Cola para patrocínio da Copa e o nosso Carnaval, com a força que tem, só consegue no máximo R$ 15 milhões. Certamente porque as competições da FIFA garantem segurança aos patrocinadores. Temos que aprender isso e descartar o que não nos serve. Temos que tornar nossos estádios populares e não restritivos, por exemplo. A Copa é algo pontual. Mas, devemos aproveitar o que ela oferece para melhorar as cidades. É o que justifica o Estado brasileiro estar investindo dinheiro público para a realização de um evento dessa natureza. 

O senhor pode atribuir nota de 1 a 10 aos seguintes itens: 

Arena Fonte Nova: 9 (não é dez porque podemos melhorar ainda mais a operação) 

Mobilidade:

Segurança: 9

Comunicação:

Serviços na Arena: 7 (algumas coisas funcionaram bem e outras precisam melhorar) 

Hotelaria: 8 (ainda precisa de mais requalificação) 

Limpeza urbana: 9 (funcionou bem na competição) 

Secopa: 10 (pela dedicação dos colaboradores. É claro que cometemos falhas e poderemos fazer melhor) 

Fifa: 8 (nós temos 20% para melhorar e a Fifa também) 

Seleção Brasileira: 10,5 (surpreendeu ao chegar desacreditada e deu um show de bola, especialmente contra a Espanha. Esse resultado é importante. Nós provamos que a população pode orgulhar-se do nosso futebol, de ter a melhor das seleções de todos os tempos. Não há contradição entre nos unirmos em torno da seleção e sermos um país de luta por mudanças. Que critica o que precisa ser criticado e exige o que precisa ser mudado. Quer dizer, não somos o país do futebol em oposição ao país de luta e cidadania. Somos um país de tudo isso e que provou ter vitalidade democrática. Tudo isso aconteceu sem a menor chance de voltarmos ao passado. Tivemos a população nas ruas pleiteando e criticando, inclusive a Copa, e ao mesmo tempo extasiada com a seleção. O futebol não é ópio do povo, mas uma paixão nacional, um direito legítimo, como comer, ter educação, saúde e lazer para ser fel iz. E o futebol traz isso. Quem bom que a seleção tenha feito um bonito papel e que bom que a população tenha feito as manifestações, excluindo os atos de vandalismo).



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